quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O cachorro da Obra

Tradução de Felipe Garcia Marçal do texto "El Perro de la Obra" de Tomás Borrás.

O cachorro da obra


Não se dava conta de como aconteceu. O cachorrinho gritava, andava agitado de um lado para o outro na esterqueira. A luz crua lhe feria os olhos. O que foi daquele calor aveludado? E daquele néctar, açúcar líquido, que lhe enchia o estômago, amodorrando-lhe? Não o encontrava tão logo em sua boca. O cãozinho, arrastando-se pelo lixo, roçava tudo com o focinho, farejando, com ávido olfato. Apenas tropeços com coisas frias: latas de tomate arrebentadas, cacos de vidro, palha podre, ripas de madeira, embrulhos de papel, lodo. Não se dava conta de como aconteceu. Mas estava ali, desesperado, perdido. Sustentando-se sobre suas patas débeis – às vezes caia de lado -, foi-se alguns metros mais pra lá da esterqueira e encontrou algumas tiras de carne. Estava a ponto de desfalecer, e aquele banquete, triturado um pouco com as gengivas, acalmou a aguda dor de seu estômago. Em suas explorações topou com uma poça. Saciada também a sede, o cãozinho, depois de focinhar uma pulga incômoda, se sentou sobre as patas e se pôs a contemplar a vida.
A vida era um desfiladeiro de asfalto entre casas altíssimas. O animal foi de um lado a outro sem encontrar mais que as superfícies lisas das paredes. Estava tão longe o final da avenida – talvez ali houvesse o que comer-, que resolveu não enfrentar o caminho. Apoiado ao soclo, descansada a fome em bocejos, perseguindo alegre alguma mosca – não podia evitar, era um menino-, passou-lhe o dia. De noite, fraco e com medo, clamou com agudos gemidos. Ninguém lhe prestou atenção.
Havia passado dois dias rondando, vagabundo, quando fez a primeira descoberta: a janela de um porão. De lá saia um fedor a cozinha, aroma que o envolveu, cálido e substancioso. A boca encheu-se de água; mastigava o odor e aumentava sua fome. Uivou com empenho, desesperado. Outro cachorro, de lá de dentro, lhe respondeu agressivo, furioso. Seus latidos foram imitados por incontáveis cachorros que se juntavam, um em cada janela, o beiço trêmulo, os caninos à mostra. Aquela foi sua segunda descoberta.
- Em cada cômodo existe um cachorro – disse para si mesmo-. Estas casas foram feitas para nós. Cozinham dentro comida da que gostamos. Como conseguiria uma casa destas?
Sentiu-se levantado por uma mão grossa. Duas vozes de tom grave, que cortavam as sílabas com um canivete, interromperam suas reflexões.
- É muito estranho. Olha ele.
- É um vira-lata.
- Mas eu num quero ele pra exposição de cães!

O cãozinho se encolheu quando a mão áspera o acariciava, percorrendo o lombo. Foi colocado no bolso de uma jaqueta, e assim o transportaram. O bolso cheirava a tabaco, ofegava e, sem saber o que fazer, gania.
- É manhoso.
- Logo passa.
As duas vozes pigarreavam, e a mão áspera obrigou o cachorro a abaixar a cabeça. Adormeceu. Continuava adormecido, quando o puseram no chão.
- Tô falando que é um vira-lata. Num tem raça.
- Bom, e daí? Vai fazer seu papel na obra.
Prenderam-no pelo pescoço com uma corda. O outro extremo da corda estava preso por alguns tijolos. O cachorro podia descrever ao seu redor uma circunferência de poucos metros. Os dois homens se sentaram sobre umas cestas e começaram comer. O cachorro devorou com ânsia pedaços de pão e linguiça. Então bebeu, em um cubo, água com sabor a cal. Batiam por perto um pedaço de ferro. Um dos homens se foi. O outro se pôs a dormir. O cachorro se deitou ao seu lado e lhe lambia a mão áspera.
De noite, depois de terminar o que lhe deixaram em um pote, viu-se livre: o homem retirou-lhe a coleira. O cachorro, sacudindo a dor de seu pescoço, fez uma viagem pelos lugares aonde fora conduzido.
Sua alegria foi estrondosa. Aquilo era um edifício em construção. Pulou os montes de gesso, meteu as patas no cimento fresco, se jogou na areia, equilibrou-se ao passar pelas vigas de ferro, convulso de júbilo, balançando o rabo. Estavam-lhe fazendo uma casa! Uma casa como as que outros cachorros tinham: futuro cheiro de comida bem preparada, janelas para ir à rua. Teve muita inveja e muito ódio quando, ao lhe ouvirem gemer de fome, apareciam covardes a enfrentá-lo. Seus latidos egoístas advertiam ao que entendia sua linguagem:
- Cão, cão!
Isso quer dizer que aquele lugar estava habitado.
- Cão, cão!- exclamou ele em seus latidos ao primeiro ruído que ouviu. Aquela casa era a sua, e agora proibia a entrada de possíveis intrusos.

Um ano demoraram em concluir a edificação. O guarda continuava chamando-lhe “Vira-lata!”, e dando-lhe de comer pão velho, grão-de-bico e restos de lingüiça. De dia ficava preso à porta, sobre um monte de serragens. De noite o soltavam e o cachorro percorria a mansão que lhe estavam preparando.
- Não entendo por que fazem tantos cômodos apenas para mim. Neste colocarei os ossos; este outro para dormir a sesta. Aqui ficarei junto ao fogo, no inverno. O corredor, para perseguir os gatos. A varanda, para brincar com os pássaros.
Mas sobravam quartos em cada um dos andares.
- Serão para a cadela e as crias. Ah! Os homens que me dão de comer viverão aqui também.
Como suprema felicidade lhe ocorreu que uma das estâncias fosse para armazenar pedaços de queijo.
O cachorro já era grande, forte, desleixado. Quando o vento lhe trazia o cheiro de um semelhante, rapidamente corria até a porta do tapume e começava a latir com todas as suas forças:
- Cão, cão!
Algumas vezes outros cães famintos, de olhar amarelado e gesto submisso, aproximavam-se dele lentamente, envergonhados, mendigando-lhe.
- Cão, cão! – esgoelava ele, indignado, disposto a não deixar que arrebatassem sua casa.
Os caninos, depois de pararem por um momento calados e humildes, iam embora a passo rápido, olhando para trás, ofegantes do caminho sem repouso, feridos pelo mostrar de dentes dos afortunados.

Um dia, foram embora os operários. O guarda, ao invés de prendê-lo à coleira, gritou-lhe:
- Vira-lata!
E lhe mostrava a rua. O cachorro balançou o rabo e o guarda o acertou com uma pedrada nas ancas. Corria, fugia, perseguido pelas pedradas. Não ousou retornar até a noite. A casa estava fechada.
No outro dia foi ao edifício que lhe haviam construído. Entravam e saíam, colocando móveis, homens desconhecidos. O cachorro, da calçada da frente, esperou com paciência que terminassem. Ao escurecer, a casa se iluminou. O coração do cachorro palpitava. Da janela do porão saía o cheiro de comida. Satisfeitíssimo, entrou pelo portão. Por ali pisou no tapete fofo. As portas das estâncias, abertas, deixavam ver o quão acolhedores eram os lares, os cantos em sombra tênue, o almofadão sobre o qual ia enrolar-se para repousar.
- Cão, cão!
Saía um de cada andar latindo, impedindo que ocupasse seu posto. Teriam se antecipado? Isso era um despojo! Aquela casa havia sido construída para ele. Passou um ano sofrendo com os trabalhos, a intempérie, a escassa ração. Ele cuidou para que nenhum outro vira-lata entrasse em seus domínios.
- Cão, cão! – gritavam.
Não lhe pareciam cachorros. Não eram como os que lutaram com ele na rua. Pareciam animais estranhos: minúsculos, bolinhas de pelo, fisionomias alargadas, deformadas ou de focinhos achatados. Não tinham o odor característico. Latiam, isso sim:
- Cão, cão!
Todos os andares tinham seu morador. Ficou parado, desconcertado, sem saber o que fazer, sem atrever-se a desafiá-los para conquistar seu direito à felicidade, para reconquistar seu paraíso.
O porteiro acudiu ao escândalo devido aos latidos.
- É o cachorro que tomava conta da obra – disse.
Retirou o cinto, e lhe deu chicotadas.
- Fora daqui!
O cachorro, uivando de dor, foi-se escada abaixo. No portão alcançou dar-lhe um último golpe.
- Fora!
A porteira comentava:
- Meu Deus, que vira-lata mais asqueroso!
Correu apavorado até que não pôde mais. Parou, cheio de baba, tragando o ar com ansiedade, a língua descomposta.
A noite em serenidade, o ar de calor doce. O cachorro se estendeu ao lado de uma torneira, depois de beber. Com o focinho entre as patas olhava, à claridade dos faróis, como cruzavam pela rua aquelas sombras apressadas e indiferentes, que eram os homens. Compreendeu que existe um ofício, o de cachorro de obra; o que se edifica não é para ele. Adiante, feita com tábuas mal cravadas, havia uma cerca. O cachorro aproximou-se com gestos submissos, lento, vagarosamente.
- Cão, cão!
Já havia outro ali. Latia freneticamente, disposto a não deixar que lhe roubassem o posto, como antes fizera ele. O cachorro, depois de parar por um instante para olhar ‘sua casa’, abaixou a cabeça com amargura e foi embora a procurar, de obra em obra, um lugar para trabalhar.

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