Texto de Felipe Garcia Marçal, tradução do conto de Jorge Luis Borges, "La Continuidad de los Parques".
Continuidade dos campos
Havia começado a ler o romance alguns dias antes. Deixou-o de lado por negócios urgentes, voltou a abri-lo quando regressava de trem a casa; deixava-se interessar lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Nessa tarde, depois de escrever uma carta ao seu representante e discutir com seu mordomo uma questão de parcerias voltou ao livro na tranqüilidade do escritório que fazia frente ao parque dos carvalhos. Aconchegado em sua poltrona favorita de costas à porta que o inquietava como uma irritante possibilidade de intrusões, deixou que sua mão esquerda acariciasse de vez em quando o veludo verde e começou a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforços os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão romanesca o dominou quase que imediatamente. Gozava do prazer quase perverso de ir desgarrando linha a linha do que o rodeava, e sentir à sua vez que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto encosto, que os cigarros seguiam ao alcance da mão, que mais além das grandes janelas dançava o ar do entardecer sobre os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pela sórdida disjuntiva dos heróis, deixando-se ir em direção às imagens que concordavam entre si e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte. Primeiro entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, com a cara machucada por uma chicotada dos galhos. Admiravelmente ela estalava o sangue com seus beijos, mas ele recusava suas carícias, não havia vindo para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal se entibiava contra seu peito, e por baixo batia a liberdade oculta. Um diálogo anelante corria pelas páginas como um arroio de serpentes, e se sentia que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que circundavam o corpo do amante, como se quisesse retê-lo e persuadi-lo, desenhavam abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada havia sido esquecido: álibis, acasos, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. A dupla revisão desapiedada era interrompida apenas para que uma mão acariciasse uma face. Começava a anoitecer.
Já sem mais olharem-se, presos rigidamente à tarefa que os esperava, se separaram na porta da cabana. Ela deveria seguir pelo caminho que ia rumo ao norte. Desde o caminho oposto ele olhou para trás por um instante para vê-la correr com seus cabelos ao vento. Correu então, esgueirando-se nas árvores e cercados até distinguir na bruma malva do crepúsculo a alameda que levava à casa. Os cães não deveriam latir, e não latiram. O mordomo não estaria a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus do alpendre e entrou. Do sangue que galopava em seus ouvidos lhe chegavam as palavras da mulher; primeiro uma sala azul, depois uma galeria, uma escada atapetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta da sala, e então o punhal na mão. A luz verde dos vitrôs, o alto encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.
domingo, 25 de outubro de 2009
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