sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O Fisionomista

Texto traduzido por mim, Felipe Garcia Marçal, originalmente escrito em espanhol por Javier García Sánchez, 'El fisionomista'.

O Fisionomista


Apenas quando o conheci que prestou atenção em mim. Ele era aberto e muito extrovertido, dessas pessoas que logo monopolizam o interesse de um grupo por sua loquacidade e pelo brilhantismo com o qual normalmente manifestam aquilo que querem expressar.
Como dizia, ao sermos apresentados não me dirigiu mais que umas poucas palavras, algo trivial e para que eu lhe deixasse passar. Já não me lembro o que foi. Com o tempo começaríamos a ser grandes amigos. Sua característica mais peculiar, como já havia dito, era o dom inato de gentes, uma rara capacidade que fazia com que fosse atraído a pessoas das mais diversas índoles. Teria uns trinta e cinco anos, usava barba e de cabelos curtos. Seu nariz era aquilino e os olhos escuros, penetrantes. Traduzia do inglês como sua fonte habitual de renda e, ainda que carecesse do diploma de jornalista, se dedicava a escrever artigos em revistas sobre cinema. Surpreendia a muitos por sua memória para esse tema, pois era um verdadeiro arquivo ambulante de dados. Dificilmente podia parecer pedante por causa de dita condição, que lhe colocava em franca vantagem em relação aos demais na hora de discutir principalmente sobre cinema. Sua simpatia compensava e muito essa demonstração de aparente suficiência.
Algumas coisas mais me contaram sobre ele, anedotas ou episódios sem importância que não vêm ao caso. Direi, não obstante, que o aspecto que me fascinou de tão rara peça foi algo que, apesar de estar mais ou menos em dia, queria comprovar com meus próprios olhos, averiguar se exageravam ou se, pelo contrario, na verdade possuía a qualidade de ser um consagrado fisionomista.
A principio não me atrevi a perguntá-lo de modo direto. Conversávamos muito, sobre tudo ele, e acreditei ser mais adequado deixar que fosse soltando-se por si só. Mostrou-me a foto de um homem hercúleo que fazia tremular sua espada ao vento. Era a seqüência de um filme.
- Está vendo esta cara? – disse. Eu afirmei com a cabeça –. Pois adivinhe quem é – completou sorrindo. Tive que me render ante a evidencia e reconhecer que apesar dos esforços feitos não conseguia encontrar a referencia que ele pretendia surrupiar-me -. O forçudo que aparecia na capa de um disco duplo, uma antologia do rock dos anos 60 – repôs com ar triunfal. Agora sim o recordava, sim, apesar da evidente mudança de imagem no cabelo, as miçangas e a péssima qualidade da fotografia daquela capa.
Quase de modo involuntário consegui que se fomentasse nele essa paixão secreta por encontrar algo parecido entre as pessoas. Para mim foi um jogo. Era algo que o entusiasmava profundamente, um desafio a sua imaginação. Acabou sendo uma mania exteriorizada com muito mais freqüência, inclusive, do que eu desejava. Estávamos diante da televisão, por exemplo, e não podia privar-se de fazer comentários ao estilo de: “Essa repórter se parece com o presidente de tal país”, ou em plena retransmissão esportiva interrompia para dizer: “Preste atenção na cara daquele árbitro, veja, esse aí: parece irmão gêmeo da esposa do padeiro”. Para minha surpresa, e também devo reconhecer que para meu divertimento, costumava acertar sempre. Não havia outro vencedor senão ele nesse permanente quebra-cabeça dos esquemas e linhas faciais.
Algum tempo mais tarde viajamos a Nova York em companhia de vários amigos. Foi lá onde sua atividade como hábil fisionomista iria alcançar um ponto crítico. Passeávamos por uma avenida central e de repente afirmava aos gritos ter visto passar dentro de um táxi a uma das esposas de Mickey Rooney, ainda que estivesse terrivelmente envelhecida e com óculos escuros, brincava. Ninguém duvidava dele, a mesma coisa quando um dia, enquanto caminhávamos pela Quinta Avenida, ficou sério e disse:
- Senhores, acabam de cruzar com a mesmíssima filha de Gary Cooper. Tem uma cara inconfundível.
E não podia ocultar seu orgulho pelo efeito causado quando, pouco depois, consultávamos em uma volumosa Enciclopédia do Cinema para corroborar seu novo acerto.
Nossa amizade, como costuma acontecer muitas vezes, sofreu altos e baixos, mas isso obedecia mais a problemas externos, a circunstâncias alheias a ele e a mim. Uma tarde, estando em sua casa, começamos a falar sobre coisas que, em tom de brincadeira, ele considerava “sérias”. A fé, a existência, a vida. E recordo que era eu quem em um dado momento discernia tranqüilamente sobre tais temas quando vi suas sobrancelhas arqueando-se enquanto me observava. Um estranho fulgor emanou de seus olhos, que se cravaram nos meus de tal forma que quase me assustei. Suas mãos transpiravam e começou a levantar-se da cadeira enquanto em sua face nascia uma pronunciada palidez. Ficou branco, cor de cera. Entreabriu os lábios como se fosse dizer algo, mas só conseguiu verbalizar um afogado pronome, “Você?”, que repetiria de forma monótona e aterrorizada enquanto andava para trás.
- Como você demorou tanto para perceber? – lhe disse da forma mais serena que me foi possível.
Mas já não me ouvia. Tentei tranqüilizá-lo dizendo que não havia por que se preocupar, retirando toda a importância do que lhe havia deixado sem fala, grudado à parede.
- Vamos – disse -, logo verá como não há nada de mais.
E o levei comigo.

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